(my) Variations

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Os instantes hesitam entre três possibilidades. A homenagem presta-se ao instante hesitante. A prestação da homenagem presta-se à homenagem do instante. Hesitar vale uma homenagem prestada às três possibilidades. As três possibilidades hesitam entre os instantes das três possibilidades. Os instantes prestam-se às homenagens da homenagem. As homenagens hesitam entre as três possibilidades.
Possibilidades, homenagens, instantes: três hesitantes. Os resistentes hesitam. Os hesitantes resistem.
Eugène Ionesco

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Há nos areais umas ervas um tanto à semelhança do tojo, mas menos complicadas, soltas e muito leves. Dão-se, dum modo geral, em terrenos desabrigados, à mercê do vento, pois é o vento que as defende. Não as quebra, uma vez que são longas e delgadíssimas para lhe resistirem; por outro lado, livra-as dos cardos e do trevo bravo, praga que tudo arrasa onde chega. Tocadas pela aragem, estas ervas de hastes tão delicadas lembram as esculturas do Calder e, por sua vez, o Calder lembra o equilíbrio abstracto duma sociedade desorientada. «E o que vem a ser propriamente uma sociedade desorientada?»
O Anjo Ancorado, José Cardoso Pires

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Da série Fui Eu Que Fiz, Já Não Me Lembrava e Agora Já (Lhe) Não Percebo Nada

Partilhando uma passagem de uma muito breve análise dentro do âmbito intitulado «”Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco: Vingança - uma análise e opinião». 2013. Não estava “inspirado”, escrevi “em cima do joelho” depois de uma noite inteira a ler a obra de rajada. Gostei da coisa, mas sobrou-me, então - no imediato, uma rede neuronal em papas.
Eis:
« (…) “Onde não há nobreza do sentimento, o estímulo das mais nobres aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação, é porque as sombras do cinismo se espalharam sobre a inteligência do homem, é porque a ignorância e os maus instintos sepultaram, e apagaram a luz viva, o facho ardente, a ideia primordial, que vinha irrompendo na alma humana (…).” [Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, Noites de Insónia, oferecidas a quem não pode dormir (nº7 de 12)]
Ao desejo, vontade, sede, chame-se-lhe como se lhe chamar, de vingança (enquanto acto de punição, neste caso associado aos cúmulos da negação da união amorosa entre os dois protagonistas românticos, Simão e Teresa), estão associados e podem ser encontrados, na obra, os outros conceitos e elementos que lhes servem de estagnação e alienação. Também são encontradas passagens explicitando vinganças consumadas, ou planos de vingança, por exemplo no que diz respeito à recusa de Teresa (aquando o primeiro confronto com o pai por ocasião do enamoramento a Simão) a casar-se com Baltasar Coutinho e antes optar pela resignação amarga da “alienação conventual” – pode considerar-se isto uma forma derivada, uma “reacção-quase-vingança”, suave e necessária escolha perante o autoritarismo paternal e o amor que sente a Simão? Também em relação a este último, explicita-se nos confrontos em que é ajudado por João da Cruz a ira revoltosa de ambos: os contornos de “vingança”, a “justiça” pelas próprias mãos.
Em Mariana não se descobre alguma vontade de vingança expressa. Afinal é ela, aos olhos e coração de Simão, uma irmã e um anjo – a irmã e o anjo da história. (…)»

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Letras Mortas # Abril (2)

País abafado no mundo todo. Todo e tudo. Pesado, fechado. 
Este meu espaço pelas margens a viver as ruas em casas dançantes, pela consequência imposta, disposta, corrida à secura de um tempo num papel reciclado onde me deixo sem ar, por dentro e por fora; sou água só, para inundar café com sangue e borrar a tinta com que se tenta lavar um mundo grande entre os corredores; e fazê-lo apenas de palavras impressas nas plantas dos pés e pintar a dança das ruas nas casas dos tectos estilhaçados. Depois: sem pernas. Invasão dos mapas das plantas verdes-noite. O que vale é que muito normalmente enlouqueço as teclas todas, e uma liberdade destas pode iludir-nos suficientemente. É vale de cordas vocais vermelhas vivas vulcânicas, tão vermelho que tinge a visão em fogo posto, tão vermelho quanto o tecelão caído ao ralo no alcatrão na hora em que corto e descasco, exacto, cada minuto ateado; para que cada segundo pingue no fundo do alguidar das testas todas: desenfeitadas, desmascaradas e desidratadas, e por fim, atadas às frentes do tempo a ver a vida que falta vir. Esta minha expressão na brasa em ferro. Que alivie a falsa e podre paz e torne falsa guerra pela vida, a urgência de vos abocanhar como se fossem sedativos que me pudessem adormecer, cansado, dentro do cinzeiro e acima das vozes que não podem ouvir o meu futuro subterrâneo das chamas azuis.
Ondulo no ar desfeito e dormente sem tecidos e articulações para abrir a parede colada à janela onde recupere um queixo antigo, exposto às queimaduras do novo tempo imaginado. Deturpando cada possível vontade de mentira para transformá-la em qualquer intensa verdade com que possa desabafar a inércia e o desassombro para com as coisas todas, com os dentes todos, na relva, na terra e no fogo.
Mas a conformidade tem o seu tempo de dar mãos à resignação, e as pessoas anoitecem tanto o verde que até esse se murcha no betão de vaidades sem luz própria. Ao espiar a lua e as estrelas pelo espaço que resta descubro passados sem futuros.
Há um presente enredado em cada laço por desmaiar e por cravar aos pés. Que fossem asas, o abafo seria vertigem e a loucura seria doce como o caminho das águas dos rios ao mar - depois, curada - curado pelo sal. 

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Letras Mortas # Abril

Há ecos pelos holofotes ao cimo – as imagens são sons das palavras das cores – aproximam-se da carne e revolvem a pele ansiosa pela revolução do tacto no negro mel de sangue. Não fales, amor-mundo. Estás seco. Assim to digo. Não contes o que te disse a ninguém: é o teu segredo. Guarda-o dentro da palavra engolida a seco. Mundo seco. 
Sei que não vais conseguir: nunca consegues, mundinho.
O teu segredo é um fundo sem fim de ecos de gemidos no cimo das palavras sem sentidos, e onde o mel que soluçamos entre rasgões de lucidez escorre pela curva do pescoço até à gruta do peito.
Desaparece a pele e apareces, um mundo inteiro por refazer.
És desse licor, desse sangue-seiva cuja planta é metade mapa e metade lenda. Levantas-me as bandeiras das cores da carne e reapareces na pele. Sujo. Parto na continuação das rodas por inventar. Na mecânica dos carris a par e passo desse segredo construído de que me esqueço continuamente. A secura pede chuva e os ecos pedem música - os pulmões enchem-se por dentro para fora e cospem-te, mundinho. O ar leva-te para fora de mim, mundo-amor, e a paixão acenderá connosco os ecos dos segredos que nunca foram, numa inglória tocha de fumos de liberdade. A vida num cabaret acontece fora do mundo, mesmo que tudo seja à sua semelhança e as criações sejam as memórias das esperanças nos futuros. Os ecos das memórias estalam o chão e os holofotes despejam as obscuras luzes como água gelada no pescoço, para que a vida continue e a esperança se renove a cada electrónica passagem da virtualidade mais-que-perfeita.
Na ideia da tua presença: o comum dos passos que nos cruzam no tempo atrás do tempo. A máquina acompanha-nos e o sistema desaparece quando nos vemos na intimidade do rubor do licor - transforma-se na energia do sangue que grita - e a fénix voa em remoinhos de ar no imenso temporal dos desejos finalmente satisfeitos – e o teu pó depois, mundo-amor. Que te quererei novamente e jovem - como no início do qualquer segredo que me faz querer descobrir-te.