(my) Variations

1 note

Linguagens Súbitas (2)

As palavras fogem do meu significado e os predicados deslizam na aparência de um significante à medida que a língua se desenrola e desata e desencaixa do resto do corpo cansado - do texto ao chão. São sujeitos, consigo distingui-los, e aproximar-me de caixa torácica aberta à vertigem de uma esperança volátil ao redor dos meus olhos nos teus, que acho que não me viram. As validades efémeras. Dito: não se aguenta o peso de um fim antes de um início. Parece que não sei como, não sei o quê, não sei porque é assim; não devo saber jogar, ou não me deixam saber. Não saberei brincar, não saberei lutar, talvez. Ou não sei resistir, não sei ficar, ou a verdade - não estou a conseguir orientar-me por um caminho de palavras que já não oiço. Repito-as. Sei que sei novamente. Os motivos são estes padrões e os espaços entre os dedos e as teclas do órgão martelado pelo vão prazer de pensar que sei o que quero, quando tenho vindo a saber sobretudo, quase claramente, o que não quero. O sítio a que vou chegando, cansado, é aquele onde preciso de ti para me afastar de mim. É, por outro lado, um sítio sonhado e também real, num futuro onde as conjugações perdem as palavras da sintomatologia crónica, as palavras que me usam, para dar então espaço à respiração que eu consiga acompanhar.


Julho, 2014

0 notes

The prejudice against “experimental” writing, which prevents readers from perceiving the mimetic aspects of their prose, has been elided in the more narratively grounded work of the cyberpunks. There, cut-ups and condensations moved from being antinarrative experimental practices (even within science fiction’s own avantgarde) to a phenomenon grounded in lived reality. The notorious first sentence of William Gibson’s Neuromancer, for example (“The sky above the port was the color of television turned to a dead channel”), describes the reality of “Chiba City,” but it also recalls Ernst’s collages, filtered through the white-noise sensibilities of electronic culture. Ballard and Burroughs, then, are crucial transitional figures positioned between the psychoanalytic modernism of the Surrealists and the electronic post modernism of the cyberpunks.

Thus the development of new spectacular forms is a project that dominates the production of recent science fiction, and the compression of Ballard’s work will find echoes, not only in cyberpunk, but also in the music video aesthetic of Max Headroom and the dense layering of panels in Howard Chaykin’s comics. Note that Ballard does not necessarily embrace the emergent order of things, and the series of technological disaster novels he has produced reveal a profound suspicion of the new cultural formations.

Scott Bukatman

Filed under writing william burroughs j. g. ballard

0 notes

LETRAS MORTAS (2014)

1

Paixão é prisão e opressão - agressão; amor é libertação e construção. Não me escondas a não ser dentro de ti. Fá-lo. E depois, esqueço-me. Levemente. De todas as nódoas negras e más companhias – lavo com as boas, e a sujidade pinta o mundo.

2

Rio-me, desarmado. Como a criança atrás da novidade que é o pardal a pular, num dia de sol. Sorrio, como o adolescente preparado. Deixo a cor entrar nos olhos que vivem pelas tuas asas. Paro. Penso. Agarro-te para levantarmos voo e armarmos o céu com as impossibilidades do mundo. Vendo-te. Com as mãos. Para que não vejas o destino e o inferno; levo-te ao ninho e pousamos as penas num novo inverno. Hibernamos com os ossos de olhos abertos e pintamos as bocas com os silêncios cúmplices das possibilidades do céu onde o ninho se transforma em castelo e as promessas são deitadas à terra e descem aos charcos, e se juntam às suas flores. Cobrem os dias e os reflexos, e aguardam as noites temperadas – quando as almas se levantam dos galhos e percorrem, fantasmagóricas, as ruas de nuvens. Esperança. Instantes turvos e ondas cíclicas nos calcanhares voadores. O mito criado e a criação dormente. Paro. Penso. Reflexos. Fecho os olhos e os dentes em ti.

3

Quando entrar na carruagem, o comboio estremecerá a escrita da tua voz nas minhas mãos, e navegarei nas órbitas irreais para fora da banalidade. A máquina acompanha o que conhece e atropela os espaços do horizonte enquanto tritura os ossos na minha voz acesa. As asas daquela fénix na leva do vento; ouviste, mundinho? O céu, a lavar os infernos de que se constrói a civilização, está expectante, e tu moves-te, Terra, esperas: até no espaço que não é teu; porque a humanidade não te merece. Pouca-terra, muita é a máquina, mundo. A lua entre as nuvens iluminadas de aves de fogo dá-me uma voz no horizonte do rastro da máquina e da chuva. Vogarei preso à ave num cabo de tensão livre. Acenarei às pessoas, aos vultos, aos cães da caravana fantasma, às cabras, às cobras, aos bichos da cidade, às putas, aos chulos, aos padres e aos cangalheiros, e puxarei os cavalos que voam para mim, e para fora da vulgaridade que mata. Para fora desse mal que persegue as plantas que não dançaram. Dar-lhe-eis roupas para se descarnarem às estrelas que caíram e se levantaram, e às outras também, as que não se levantaram. Serão vivas e vividas. Vou levá-las nas asas e nos mitos. Os vapores queimam o caminho e as aves abandonam-se ao ar de menor pressão, afastam-se das memórias da liberdade como das verdades que ferem; reaproximam-me das presenças da liberdade e das evidências que curam.

4

De te apertar a mão: queria-te agora; agora e depois, em todo o lado.

Não a largues. Sê a minha cruz. Os meus espinhos, o meu sangue, o meu abandono. Sem mim, como quiseres; sê com quem e com o que quiseres. Ou só e todo meu. Uma pessoa, pessoal e intransmissível: aí, aqui, em nós, e connosco (a) sós. Vais unir a tua voz à nossa casca de barco, e estas palavras que fogem (pelo rio ao mar) serão tuas muito para além da duração do aperto. Já uniste, neste universo paralelo em que sobrevivo melhor. Lembro-me da lentidão no desencontro, de quase sufocar, daqueles sonhos, de alguns pesadelos, de quase tudo o que o consigo lembrar-me, e de coisas por esquecer: até daquelas que foram esquecidas. De respirar. Lentamente na aceleração e erosão pelo tempo.

De manhã cedo pintado. De sonhar acordado. É por te encontrar por aí sim. Já me esqueci, já me perdi, já te perdi.

Penduro no espaço - como a roupa ao vento quente - esta escrita, no som. Na flor da pele em que ressoa a voz a viajar na luz com que aconteces, onde te vejo a dar-me a corda para voltares nas voltas em que te reencontro e me desapareço e te perco (sempre): em nós, nos nós. Depois, no depois do futuro dos frutos por pensar e criar, vou esconder-me em ti. Com uma força frágil, com sabor a um sonho que me lembraste. E agora? Acordaste-me. Acorda, ilusão.

5

O tempo não está para pessoas. Está para números. Gente sem gente lá dentro; gentes com pouca areia e muitas arenas, paixão.

Das gentes o tempo cansa-se. Está aqui para estas letras serem as mentiras arredondadas, curvilíneas, caligrafias das labaredas que bebo, caixão. Paixão, esta palavra também a comi, para que não a visses, senhor, e com ela não cegasses o meu desejo sem amor. Antigo que sou nesta falta de palavras novas. Este número agora, tem a palavra de um baralho de cartas atiradas ao ar do tempo para as apanhar e as contar do início, as ordenar ao vento, e esquecer e evaporar nesse calor enganador - baralhar-nos os sentidos e as direcções, e o vento e o depois, enfim, depois, depois depois depois: respirar a cinza durante uma eternidade sem o tempo das gentes fáceis, de tratos difíceis, de risos fáceis, de fáceis habilidades - mais difíceis que eu e tu, mais defeituosas. Inveja, ciúme, cobiça: os predicados dos circos voláteis a que nos prendem. Nós seremos santos, teremos sexo apenas com os anjos, e seremos desinteressados das humanidades: pequenas humanidades que, quando as deixo lancetar-me, me fazem esvair em tempo, em labaredas: este conjunto de visões por esconder dos sinos e sinas do alto dos ventos - que fala pelas artimanhas deste tempo sem pessoas, e onde tudo muda a todo o instante. Para esconder também dos órfãos que vieram do sangue e procuram esperança e saúde naqueles campos além, sem os saberem envenenados; onde montam as tendas para o circo de gentes por existir. Gentes inumanas a quem possamos idolatrar e chamar deuses, sem circos de gentes, sem gentes em cerco. Gentes imortais, dos futuros, sem estas nossas vidas perdidas em tecnologias em fluxos e refluxos que esbatem o presente, desconstroem o passado e trazem o futuro pelos cabos codificados das electricidades vivas sem ligações às terras onde jazemos sempre. Gentes a quem possamos santificar o nosso desejo, por si mesmas e por nós mesmos. Gentes unidas a ver os anjos, e a subir com eles aos ‘lás’ dos órgãos que transformam instantes em eternidades que ressoam noutras gentes, de sorrisos bem vivos desmedidos - pessoas aquecidas pelas palavras todas, e com quem nos entregamos ao colo do mundo. 

6

País abafado no mundo todo. Todo e tudo. Pesado, fechado.

Este meu espaço pelas margens a viver as ruas em casas dançantes, pela consequência imposta, disposta, corrida à secura de um tempo num papel reciclado onde me deixo sem ar, por dentro e por fora; sou água só, para inundar café com sangue e borrar a tinta com que se tenta lavar um mundo grande entre os corredores; e fazê-lo apenas de palavras impressas nas plantas dos pés e pintar a dança das ruas nas casas dos tectos estilhaçados. Depois: sem pernas. Invasão dos mapas das plantas verdes-noite. O que vale é que muito normalmente enlouqueço as teclas todas, e uma liberdade destas pode iludir-nos suficientemente. É vale de cordas vocais vermelhas vivas vulcânicas, tão vermelho que tinge a visão em fogo posto, tão vermelho quanto o tecelão caído ao ralo no alcatrão na hora em que corto e descasco, exacto, cada minuto ateado; para que cada segundo pingue no fundo do alguidar das testas todas: desenfeitadas, desmascaradas e desidratadas, e por fim, atadas às frentes do tempo a ver a vida que falta vir. Esta minha expressão na brasa em ferro. Que alivie a falsa e podre paz e torne falsa guerra pela vida, a urgência de vos abocanhar como se fossem sedativos que me pudessem adormecer, cansado, dentro do cinzeiro e acima das vozes que não podem ouvir o meu futuro subterrâneo das chamas azuis.

Ondulo no ar desfeito e dormente sem tecidos e articulações para abrir a parede colada à janela onde recupere um queixo antigo, exposto às queimaduras do novo tempo imaginado. Deturpando cada possível vontade de mentira para transformá-la em qualquer intensa verdade com que possa desabafar a inércia e o desassombro para com as coisas todas, com os dentes todos, na relva, na terra e no fogo.

Mas a conformidade tem o seu tempo de dar mãos à resignação, e as pessoas anoitecem tanto o verde que até esse se murcha no betão de vaidades sem luz própria. Ao espiar a lua e as estrelas pelo espaço que resta descubro passados sem futuros.

Há um presente enredado em cada laço por desmaiar e por cravar aos pés. Que fossem asas, o abafo seria vertigem e a loucura seria doce como o caminho das águas dos rios ao mar - depois, curada - curado pelo sal.

7

Há ecos pelos holofotes ao cimo – as imagens são sons das palavras das cores – aproximam-se da carne e revolvem a pele ansiosa pela revolução do tacto no negro mel de sangue. Não fales, amor-mundo. Estás seco. Assim to digo. Não contes o que te disse a ninguém: é o teu segredo. Guarda-o dentro da palavra engolida a seco. Mundo seco.

Sei que não vais conseguir: nunca consegues, mundinho.

O teu segredo é um fundo sem fim de ecos de gemidos no cimo das palavras sem sentidos, e onde o mel que soluçamos entre rasgões de lucidez escorre pela curva do pescoço até à gruta do peito.

Desaparece a pele e apareces, um mundo inteiro por refazer.

És desse licor, desse sangue-seiva cuja planta é metade mapa e metade lenda. Levantas-me as bandeiras das cores da carne e reapareces na pele. Sujo. Parto na continuação das rodas por inventar. Na mecânica dos carris a par e passo desse segredo construído de que me esqueço continuamente. A secura pede chuva e os ecos pedem música - os pulmões enchem-se por dentro para fora e cospem-te, mundinho. O ar leva-te para fora de mim, mundo-amor, e a paixão acenderá connosco os ecos dos segredos que nunca foram, numa inglória tocha de fumos de liberdade. A vida num cabaret acontece fora do mundo, mesmo que tudo seja à sua semelhança e as criações sejam as memórias das esperanças nos futuros. Os ecos das memórias estalam o chão e os holofotes despejam as obscuras luzes como água gelada no pescoço, para que a vida continue e a esperança se renove a cada electrónica passagem da virtualidade mais-que-perfeita.

Na ideia da tua presença: o comum dos passos que nos cruzam no tempo atrás do tempo. A máquina acompanha-nos e o sistema desaparece quando nos vemos na intimidade do rubor do licor - transforma-se na energia do sangue que grita - e a fénix voa em remoinhos de ar no imenso temporal dos desejos finalmente satisfeitos – e o teu pó depois, mundo-amor. Que te quererei novamente e jovem - como no início do qualquer segredo que me faz querer descobrir-te.

8

Sou um gajo muito mental e tenho o tamanho do teu corpo como minha mentalidade. Em cada toque e beijo nos vivos, objectos humanos, procuro a tua boca na minha testa e depois, sonho. O meu contexto não é a barbárie-humanidade; é procurar-te no acaso como salvação em espinho por dentro do pensamento.

9

Coração roedor, tocador, que bebe - por mim e por ti, à volta do lábio tecido na porção insaciável do embalo no bater da baqueta no pano da testa. Insensatez. Depois, há sempre o depois do sopro no telhado, das plumas e das penas e da leveza enlaçada ao chapéu que voa em espiral em direcção ao cimo… e depois, há depois do depois: volta às mãos com a cabeça. Depois do depois do depois far-se-à tarde. E noite, doce noite que bebe um novo primeiro trago.

10

Sim, tenho este encosto.

Não, não me amas.

Muito. Crava-se muito das costas ao peito, e faz-me respirar alguma liberdade, a tempos. Amor imaginário.

Não, nunca me beijaste.

Sim, que me quero levantar e partir.

Este encosto: a favor e contra-mundo.

Não, não te encontro.

Talvez não me conheças, afinal.

Não me queres.

Sim, estás a menos e não és a minha realidade. Queres ser?

Pura, dura, doce encosto. Deixo-me ficar.

11

A infusão de chamas

Plantadas na boca fria,

Aquecida a língua de pedra,

Amolecida a frase sentenciada

Da árvore ao sol:

Volta-te para mim,

Da lua ao sol:

Espelha-me,

Do sol à terra:

Não te afastes.

A noite engole o dia

Que nasce da manhã:

Tudo é tempo.

Há tempo para o cão:

Vai entre as árvores.

Há para o gato,

Acorda à noite

À frente do vento.

Os outros animais,

Nós,

A dar cor aos olhos,

Olhares às folhas,

Dedos das árvores,

Nós - dos troncos

No meio da cidade

A descansar num momento

Esquecidos nas flores,

Longe do sol

À vista da lua

Apoiados na terra e nas frases

Das línguas plantadas e difusas.

12

Tenho esta sede de um papel. Depois, um papel amarrotado: empurro-o pela garganta abaixo. Atiro um fósforo aceso lá para dentro. Fecho-me.

Tenho esta fome de uma solidão acompanhada. Depois, uma solidão só: devolvo o papel pela boca e as palavras voam pelo círculo de fogo até ao teu lado; viras as costas, atiro a garganta pela janela - aperta-se gargantilha no pescoço de um inocente. Olha-me fechado, sem papel, sem palavra; ainda em fogo.

O vento cai e chovo para a rua e escorro pelo chão.

13

Aquecendo o clima, surgem todas as evidências e provas dadas de vida por esse romantismo bucólico comum a alguns espíritos – o das flores e dos pássaros e dos sentimentos de esperança, pelos solos sedentos de sais minerais e pelas rotações que se colhem à Terra. A convivência das coisas dá-se necessária e desnecessariamente, não fosse ele um ser humano cujo pensamento dito racional tem vindo a aprender, e aprende a aliar-se à percepção sensível dessas coisas em que a cultura, paralelamente à naturalidade, o acomoda – mesmo quando está fora dos campos, esses onde as visões vivem mais intensas, talvez, ou lentas, ou simples… – dirão os acostumados às urbes. Sobretudo quando as horas lhe crescem um formigueiro no espírito e o impacientam. O corpo descontrolado sente a náusea dos hábitos das rotinas ou também da falta delas - quando não há perspectivas de uma descoberta que mude ou defina um rumo. O tal romantismo… acolhe-o e adormece-o num descampado, bem no centro geométrico da cidade que cresceu para fora e não cabe no mundo.

14

O que me resta é cantar a idealização. Não me posso aproximar mais sob pena de se desfazer este feitiço em que vivo. A que me lancei. Não encontro o travão, nem a lança, nem a rede, nem o desejo desejado – que se lixe a loucura e politize a razão.

As águas frias do céu vão tardando em chegar e acordar-me.

Não se pode não viver iludido. Ato-me. Abro-me.

Embaraço-me nos fios de sangue, de tinta, de impressões digitais nos tempos mortos e também nos intervalos das ansiedades.

A sensação de estar sempre a perder equilibra-me quando me encontro aos lados do caminho; diz-me ele assim: nunca fiz mais do que perder-me nos meus caminhos a cada nova bússola a que descuidadamente limpo o pó com os tecidos remendados de dentro para fora. Deixo-os cair, chegam ao chão pouco antes de mim.

Os caminhos não se fazem caminhando quando vou por aí. Fazem-se sonhando na forma da perda dos pesadelos – olhando os olhos e seguindo de vazio em vazio. Até restar o indizível e o canto da assombração.

15

Não preciso de ti para sobreviver,

Mas quando o meu campo for o teu corpo

Onde, com fogo na carne, lavarei a nossa terra,

Quando o céu cair sobre o meu corpo,

Onde, com água morna pela cintura, mergulharei

Nas areias entre os intervalos dessas sombras,

Entre as possibilidades, os acasos e tantos lados

Do corpo da tua alma a dirigir as minhas vidas,

Estas linhas e direcções que mal ou pouco se cruzam com as tuas,

Quando, onde, se acontecer: poderia passar a precisar mais:

De mais, demais, muito mais,

Mais do que quereria precisar.

Assim é preciso que me afaste - mais do que consigo,

É assim que não me consigo afastar:

É nalguma forma que preciso ser mais do que sou

Sem realmente precisar.

Deixar-me estar

Vogar como água a infiltrar-se,

A secar, a sonhar na terra e a alimentar as nuvens.

16

Cresceram cardos,

Choveram cravos,

Incendiaram-se rosas

Para começo do Verão

Mordemos os espinhos

Pelo ponto da flor

A descoberto

Em céu aberto

Em peito liberto,

Ao abrigo do dia

Pela claridade das vozes

A cantar as noites

Em vinho e poesia

Nas linhas e luzes das prosas

Às esperanças da maresia,

Remar, remar, rimar e voltar,

A leve leve leveza nada

Pela água até este lugar.

1 note

Linguagens Súbitas (1)

Esta língua que me atraiçoa
Este português exilado debaixo do músculo
Este estrangeiro cantado
Esta visão dedilhada no pôr-se ao sol:
A tarde
Entre as línguas faladas,

Juntas em clamor,
Amor: confundo uma dificuldade
Com um crescimento lento e forte
A
 abater-me as defesas, as costas,
As línguas d
e areia.

A península mastigada
À deriva nos sucessivos adiamentos
Das ondas nas conchas à beira-palavra,
Escrita: não dita,
Por pronunciar-se minha.
Maldita força lenta a abater-me
As defesas
A consciência e a consistência,
A língua ansiosa
Embrulhada no calor da espera
Debaixo do céu da boca. 

Julho, 2014

Filed under escritos

1 note

At one time, according to Sir George H. Darwin, the Moon was very close to the Earth.
Then the tides gradually pushed her far away: the tides that the Moon herself causes in the Earth’s waters, where the Earth slowly loses energy.

How well I know! — old Qfwfq cried,— the rest of you can’t remember, but I can.
We had her on top of us all the time, that enormous Moon: when she was full - nights as bright as day, but with a butter-colored light — it looked as if she were going to crush us; when she was new, she rolled around the sky like a black umbrella blown by the wind; and when she was waxing, she came forward with her horns so low she seemed about to stick into the peak of a promontory and get caught there. But the whole business of the Moon’s phases worked in a different way then: because the distances from the Sun were different, and the orbits, and the angle of something or other, I forget what; as for eclipses, with Earth and Moon stuck together the way they were, why, we had eclipses every minute: naturally, those two big monsters managed to put each other in the shade constantly, first one, then the other.
Orbit? Oh, elliptical, of course: for a while it would huddle against us and then it would take flight for a while. The tides, when the Moon swung closer, rose so high nobody could hold them back. There were nights when the Moon was full and very, very low, and the tide was so high that the Moon missed a ducking in the sea by a hair’sbreadth; well, let’s say a few yards anyway. Climb up on the Moon? Of course we did. All you had to do was row out to it in a boat and, when you were underneath, prop a ladder against her and scramble up. (…)

Italo Calvino

Filed under italo calvino short story