(my) Variations

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Linguagens Súbitas (4)

A vontade, o desejo, a sensação, tudo entardece. O pôr da luz nos olhos que ficam para a noite. Eros nas gargantas roucas da paixão que amadurece.
Vénus batendo à frente das velas errantes em caminho pelas teias, à frente pela ondulação repetida e cansada: o que é supérfluo tomba a cada curva na salvação pelo calor - o fogo - o que resta - humano, brilhante e idealista, quase irrealista.
A vela deixa-se ir, sem esforço, no sopro pelas curvas nos caminhos, ela própria quase tombando. O susto do vulto do escuro do pôr do espaço na luz dos olhos das visões roucas que não te chegam - aquilo que foi daquilo que é de acolá que é de além que será doutra coisa que não foi esta - que de repente não te avistaram, e se erguem pelo espaço do rufar da pele bem esticada por uma paixão amansada, quase ancorada. Talvez miragem. Talvez a
 invisibilidade dos laços do entardecer na garganta de Eros, e nas mãos do tritão, e as velas a dissipar-se na navegação: sentinelas da construção suspensa entre a tarde e a noite, a pôr-se nos olhos antes do tempo. 

Setembro de 2014

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Linguagens Súbitas (3)

Acordei a meio da noite e fui à mata que cerra a praia.
Perdi-me entre pinheiros até me orientar nas tuas pegadas até à beira-mar. Desenterrei então a imagem sobre o sonho da velha infância: a promessa de um futuro como professor no jogo dos caminhos todos à fuga da perdição. Encontrei o giz do quadro do passado sobre o futuro das tuas pegadas até ao mar a bater a terra, seco como um tempo de presentes escondidos na voz dos búzios, encarnados nas suas palavras de areia: dizem-me que acorde a meio da noite para voltar à cama, e à almofada, para que me perca nos sonhos das desistências dos passados e dos futuros, para me entregar ao presente - tão fácil, tão dito.
Estou num passado perfeito entre ilusões e barcos em alto mar, na ondulação de um presente de ossos enterrados até à porção feliz da respiração. Adormeço a meio do fôlego que desprende a tua pegada da minha e acordo na madrugada de um futuro por inventar, com imagens da velha juventude como aluno de um mundo que quero mais do que este - o caminho das palavras leva-me à mata deserta e encontro o quadro do tempo maleável. Trago-o debaixo do braço para debaixo da cama, para que me embale para fora do possível a cada vez que acorde. 

Agosto de 2014

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We make ourselves a place apart
Behind light words that tease and flout,
But oh, the agitated heart
Till someone find us really out.

'Tis pity if the case require
(Or so we say) that in the end
We speak the literal to inspire
The understanding of a friend.

But so with all, from babes that play
At hide-and-seek to God afar,
So all who hide too well away
Must speak and tell us where they are.

Robert Frost

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I sing to use the waiting,
My bonnet but to tie,
And shut the door unto my house;
No more to do have I,

Till, his best step approaching,
We journey to the day,
And tell each other how we sang
To keep the dark away.
Emily Dickinson

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Ode ao Gato

"Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de  cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento  à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma  coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite .

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o  terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo  gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.”

Pablo Neruda

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Linguagens Súbitas (2)

As palavras fogem do meu significado e os predicados deslizam na aparência de um significante à medida que a língua se desenrola e desata e desencaixa do resto do corpo cansado - do texto ao chão. São sujeitos, consigo distingui-los, e aproximar-me de caixa torácica aberta à vertigem de uma esperança volátil ao redor dos meus olhos nos teus, que acho que não me viram. As validades efémeras. Dito: não se aguenta o peso de um fim antes de um início. Parece que não sei como, não sei o quê, não sei porque é assim; não devo saber jogar, ou não me deixam saber. Não saberei brincar, não saberei lutar, talvez. Ou não sei resistir, não sei ficar, ou a verdade - não estou a conseguir orientar-me por um caminho de palavras que já não oiço. Repito-as. Sei que sei novamente. Os motivos são estes padrões e os espaços entre os dedos e as teclas do órgão martelado pelo vão prazer de pensar que sei o que quero, quando tenho vindo a saber sobretudo, quase claramente, o que não quero. O sítio a que vou chegando, cansado, é aquele onde preciso de ti para me afastar de mim. É, por outro lado, um sítio sonhado e também real, num futuro onde as conjugações perdem as palavras da sintomatologia crónica, as palavras que me usam, para dar então espaço à respiração que eu consiga acompanhar.


Julho, 2014

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The prejudice against “experimental” writing, which prevents readers from perceiving the mimetic aspects of their prose, has been elided in the more narratively grounded work of the cyberpunks. There, cut-ups and condensations moved from being antinarrative experimental practices (even within science fiction’s own avantgarde) to a phenomenon grounded in lived reality. The notorious first sentence of William Gibson’s Neuromancer, for example (“The sky above the port was the color of television turned to a dead channel”), describes the reality of “Chiba City,” but it also recalls Ernst’s collages, filtered through the white-noise sensibilities of electronic culture. Ballard and Burroughs, then, are crucial transitional figures positioned between the psychoanalytic modernism of the Surrealists and the electronic post modernism of the cyberpunks.

Thus the development of new spectacular forms is a project that dominates the production of recent science fiction, and the compression of Ballard’s work will find echoes, not only in cyberpunk, but also in the music video aesthetic of Max Headroom and the dense layering of panels in Howard Chaykin’s comics. Note that Ballard does not necessarily embrace the emergent order of things, and the series of technological disaster novels he has produced reveal a profound suspicion of the new cultural formations.

Scott Bukatman

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LETRAS MORTAS (2014)

1

Paixão é prisão e opressão - agressão; amor é libertação e construção. Não me escondas a não ser dentro de ti. Fá-lo. E depois, esqueço-me. Levemente. De todas as nódoas negras e más companhias – lavo com as boas, e a sujidade pinta o mundo.

2

Rio-me, desarmado. Como a criança atrás da novidade que é o pardal a pular, num dia de sol. Sorrio, como o adolescente preparado. Deixo a cor entrar nos olhos que vivem pelas tuas asas. Paro. Penso. Agarro-te para levantarmos voo e armarmos o céu com as impossibilidades do mundo. Vendo-te. Com as mãos. Para que não vejas o destino e o inferno; levo-te ao ninho e pousamos as penas num novo inverno. Hibernamos com os ossos de olhos abertos e pintamos as bocas com os silêncios cúmplices das possibilidades do céu onde o ninho se transforma em castelo e as promessas são deitadas à terra e descem aos charcos, e se juntam às suas flores. Cobrem os dias e os reflexos, e aguardam as noites temperadas – quando as almas se levantam dos galhos e percorrem, fantasmagóricas, as ruas de nuvens. Esperança. Instantes turvos e ondas cíclicas nos calcanhares voadores. O mito criado e a criação dormente. Paro. Penso. Reflexos. Fecho os olhos e os dentes em ti.

3

Quando entrar na carruagem, o comboio estremecerá a escrita da tua voz nas minhas mãos, e navegarei nas órbitas irreais para fora da banalidade. A máquina acompanha o que conhece e atropela os espaços do horizonte enquanto tritura os ossos na minha voz acesa. As asas daquela fénix na leva do vento; ouviste, mundinho? O céu, a lavar os infernos de que se constrói a civilização, está expectante, e tu moves-te, Terra, esperas: até no espaço que não é teu; porque a humanidade não te merece. Pouca-terra, muita é a máquina, mundo. A lua entre as nuvens iluminadas de aves de fogo dá-me uma voz no horizonte do rastro da máquina e da chuva. Vogarei preso à ave num cabo de tensão livre. Acenarei às pessoas, aos vultos, aos cães da caravana fantasma, às cabras, às cobras, aos bichos da cidade, às putas, aos chulos, aos padres e aos cangalheiros, e puxarei os cavalos que voam para mim, e para fora da vulgaridade que mata. Para fora desse mal que persegue as plantas que não dançaram. Dar-lhe-eis roupas para se descarnarem às estrelas que caíram e se levantaram, e às outras também, as que não se levantaram. Serão vivas e vividas. Vou levá-las nas asas e nos mitos. Os vapores queimam o caminho e as aves abandonam-se ao ar de menor pressão, afastam-se das memórias da liberdade como das verdades que ferem; reaproximam-me das presenças da liberdade e das evidências que curam.

4

De te apertar a mão: queria-te agora; agora e depois, em todo o lado.

Não a largues. Sê a minha cruz. Os meus espinhos, o meu sangue, o meu abandono. Sem mim, como quiseres; sê com quem e com o que quiseres. Ou só e todo meu. Uma pessoa, pessoal e intransmissível: aí, aqui, em nós, e connosco (a) sós. Vais unir a tua voz à nossa casca de barco, e estas palavras que fogem (pelo rio ao mar) serão tuas muito para além da duração do aperto. Já uniste, neste universo paralelo em que sobrevivo melhor. Lembro-me da lentidão no desencontro, de quase sufocar, daqueles sonhos, de alguns pesadelos, de quase tudo o que o consigo lembrar-me, e de coisas por esquecer: até daquelas que foram esquecidas. De respirar. Lentamente na aceleração e erosão pelo tempo.

De manhã cedo pintado. De sonhar acordado. É por te encontrar por aí sim. Já me esqueci, já me perdi, já te perdi.

Penduro no espaço - como a roupa ao vento quente - esta escrita, no som. Na flor da pele em que ressoa a voz a viajar na luz com que aconteces, onde te vejo a dar-me a corda para voltares nas voltas em que te reencontro e me desapareço e te perco (sempre): em nós, nos nós. Depois, no depois do futuro dos frutos por pensar e criar, vou esconder-me em ti. Com uma força frágil, com sabor a um sonho que me lembraste. E agora? Acordaste-me. Acorda, ilusão.

5

O tempo não está para pessoas. Está para números. Gente sem gente lá dentro; gentes com pouca areia e muitas arenas, paixão.

Das gentes o tempo cansa-se. Está aqui para estas letras serem as mentiras arredondadas, curvilíneas, caligrafias das labaredas que bebo, caixão. Paixão, esta palavra também a comi, para que não a visses, senhor, e com ela não cegasses o meu desejo sem amor. Antigo que sou nesta falta de palavras novas. Este número agora, tem a palavra de um baralho de cartas atiradas ao ar do tempo para as apanhar e as contar do início, as ordenar ao vento, e esquecer e evaporar nesse calor enganador - baralhar-nos os sentidos e as direcções, e o vento e o depois, enfim, depois, depois depois depois: respirar a cinza durante uma eternidade sem o tempo das gentes fáceis, de tratos difíceis, de risos fáceis, de fáceis habilidades - mais difíceis que eu e tu, mais defeituosas. Inveja, ciúme, cobiça: os predicados dos circos voláteis a que nos prendem. Nós seremos santos, teremos sexo apenas com os anjos, e seremos desinteressados das humanidades: pequenas humanidades que, quando as deixo lancetar-me, me fazem esvair em tempo, em labaredas: este conjunto de visões por esconder dos sinos e sinas do alto dos ventos - que fala pelas artimanhas deste tempo sem pessoas, e onde tudo muda a todo o instante. Para esconder também dos órfãos que vieram do sangue e procuram esperança e saúde naqueles campos além, sem os saberem envenenados; onde montam as tendas para o circo de gentes por existir. Gentes inumanas a quem possamos idolatrar e chamar deuses, sem circos de gentes, sem gentes em cerco. Gentes imortais, dos futuros, sem estas nossas vidas perdidas em tecnologias em fluxos e refluxos que esbatem o presente, desconstroem o passado e trazem o futuro pelos cabos codificados das electricidades vivas sem ligações às terras onde jazemos sempre. Gentes a quem possamos santificar o nosso desejo, por si mesmas e por nós mesmos. Gentes unidas a ver os anjos, e a subir com eles aos ‘lás’ dos órgãos que transformam instantes em eternidades que ressoam noutras gentes, de sorrisos bem vivos desmedidos - pessoas aquecidas pelas palavras todas, e com quem nos entregamos ao colo do mundo. 

6

País abafado no mundo todo. Todo e tudo. Pesado, fechado.

Este meu espaço pelas margens a viver as ruas em casas dançantes, pela consequência imposta, disposta, corrida à secura de um tempo num papel reciclado onde me deixo sem ar, por dentro e por fora; sou água só, para inundar café com sangue e borrar a tinta com que se tenta lavar um mundo grande entre os corredores; e fazê-lo apenas de palavras impressas nas plantas dos pés e pintar a dança das ruas nas casas dos tectos estilhaçados. Depois: sem pernas. Invasão dos mapas das plantas verdes-noite. O que vale é que muito normalmente enlouqueço as teclas todas, e uma liberdade destas pode iludir-nos suficientemente. É vale de cordas vocais vermelhas vivas vulcânicas, tão vermelho que tinge a visão em fogo posto, tão vermelho quanto o tecelão caído ao ralo no alcatrão na hora em que corto e descasco, exacto, cada minuto ateado; para que cada segundo pingue no fundo do alguidar das testas todas: desenfeitadas, desmascaradas e desidratadas, e por fim, atadas às frentes do tempo a ver a vida que falta vir. Esta minha expressão na brasa em ferro. Que alivie a falsa e podre paz e torne falsa guerra pela vida, a urgência de vos abocanhar como se fossem sedativos que me pudessem adormecer, cansado, dentro do cinzeiro e acima das vozes que não podem ouvir o meu futuro subterrâneo das chamas azuis.

Ondulo no ar desfeito e dormente sem tecidos e articulações para abrir a parede colada à janela onde recupere um queixo antigo, exposto às queimaduras do novo tempo imaginado. Deturpando cada possível vontade de mentira para transformá-la em qualquer intensa verdade com que possa desabafar a inércia e o desassombro para com as coisas todas, com os dentes todos, na relva, na terra e no fogo.

Mas a conformidade tem o seu tempo de dar mãos à resignação, e as pessoas anoitecem tanto o verde que até esse se murcha no betão de vaidades sem luz própria. Ao espiar a lua e as estrelas pelo espaço que resta descubro passados sem futuros.

Há um presente enredado em cada laço por desmaiar e por cravar aos pés. Que fossem asas, o abafo seria vertigem e a loucura seria doce como o caminho das águas dos rios ao mar - depois, curada - curado pelo sal.

7

Há ecos pelos holofotes ao cimo – as imagens são sons das palavras das cores – aproximam-se da carne e revolvem a pele ansiosa pela revolução do tacto no negro mel de sangue. Não fales, amor-mundo. Estás seco. Assim to digo. Não contes o que te disse a ninguém: é o teu segredo. Guarda-o dentro da palavra engolida a seco. Mundo seco.

Sei que não vais conseguir: nunca consegues, mundinho.

O teu segredo é um fundo sem fim de ecos de gemidos no cimo das palavras sem sentidos, e onde o mel que soluçamos entre rasgões de lucidez escorre pela curva do pescoço até à gruta do peito.

Desaparece a pele e apareces, um mundo inteiro por refazer.

És desse licor, desse sangue-seiva cuja planta é metade mapa e metade lenda. Levantas-me as bandeiras das cores da carne e reapareces na pele. Sujo. Parto na continuação das rodas por inventar. Na mecânica dos carris a par e passo desse segredo construído de que me esqueço continuamente. A secura pede chuva e os ecos pedem música - os pulmões enchem-se por dentro para fora e cospem-te, mundinho. O ar leva-te para fora de mim, mundo-amor, e a paixão acenderá connosco os ecos dos segredos que nunca foram, numa inglória tocha de fumos de liberdade. A vida num cabaret acontece fora do mundo, mesmo que tudo seja à sua semelhança e as criações sejam as memórias das esperanças nos futuros. Os ecos das memórias estalam o chão e os holofotes despejam as obscuras luzes como água gelada no pescoço, para que a vida continue e a esperança se renove a cada electrónica passagem da virtualidade mais-que-perfeita.

Na ideia da tua presença: o comum dos passos que nos cruzam no tempo atrás do tempo. A máquina acompanha-nos e o sistema desaparece quando nos vemos na intimidade do rubor do licor - transforma-se na energia do sangue que grita - e a fénix voa em remoinhos de ar no imenso temporal dos desejos finalmente satisfeitos – e o teu pó depois, mundo-amor. Que te quererei novamente e jovem - como no início do qualquer segredo que me faz querer descobrir-te.

8

Sou um gajo muito mental e tenho o tamanho do teu corpo como minha mentalidade. Em cada toque e beijo nos vivos, objectos humanos, procuro a tua boca na minha testa e depois, sonho. O meu contexto não é a barbárie-humanidade; é procurar-te no acaso como salvação em espinho por dentro do pensamento.

9

Coração roedor, tocador, que bebe - por mim e por ti, à volta do lábio tecido na porção insaciável do embalo no bater da baqueta no pano da testa. Insensatez. Depois, há sempre o depois do sopro no telhado, das plumas e das penas e da leveza enlaçada ao chapéu que voa em espiral em direcção ao cimo… e depois, há depois do depois: volta às mãos com a cabeça. Depois do depois do depois far-se-à tarde. E noite, doce noite que bebe um novo primeiro trago.

10

Sim, tenho este encosto.

Não, não me amas.

Muito. Crava-se muito das costas ao peito, e faz-me respirar alguma liberdade, a tempos. Amor imaginário.

Não, nunca me beijaste.

Sim, que me quero levantar e partir.

Este encosto: a favor e contra-mundo.

Não, não te encontro.

Talvez não me conheças, afinal.

Não me queres.

Sim, estás a menos e não és a minha realidade. Queres ser?

Pura, dura, doce encosto. Deixo-me ficar.

11

A infusão de chamas

Plantadas na boca fria,

Aquecida a língua de pedra,

Amolecida a frase sentenciada

Da árvore ao sol:

Volta-te para mim,

Da lua ao sol:

Espelha-me,

Do sol à terra:

Não te afastes.

A noite engole o dia

Que nasce da manhã:

Tudo é tempo.

Há tempo para o cão:

Vai entre as árvores.

Há para o gato,

Acorda à noite

À frente do vento.

Os outros animais,

Nós,

A dar cor aos olhos,

Olhares às folhas,

Dedos das árvores,

Nós - dos troncos

No meio da cidade

A descansar num momento

Esquecidos nas flores,

Longe do sol

À vista da lua

Apoiados na terra e nas frases

Das línguas plantadas e difusas.

12

Tenho esta sede de um papel. Depois, um papel amarrotado: empurro-o pela garganta abaixo. Atiro um fósforo aceso lá para dentro. Fecho-me.

Tenho esta fome de uma solidão acompanhada. Depois, uma solidão só: devolvo o papel pela boca e as palavras voam pelo círculo de fogo até ao teu lado; viras as costas, atiro a garganta pela janela - aperta-se gargantilha no pescoço de um inocente. Olha-me fechado, sem papel, sem palavra; ainda em fogo.

O vento cai e chovo para a rua e escorro pelo chão.

13

Aquecendo o clima, surgem todas as evidências e provas dadas de vida por esse romantismo bucólico comum a alguns espíritos – o das flores e dos pássaros e dos sentimentos de esperança, pelos solos sedentos de sais minerais e pelas rotações que se colhem à Terra. A convivência das coisas dá-se necessária e desnecessariamente, não fosse ele um ser humano cujo pensamento dito racional tem vindo a aprender, e aprende a aliar-se à percepção sensível dessas coisas em que a cultura, paralelamente à naturalidade, o acomoda – mesmo quando está fora dos campos, esses onde as visões vivem mais intensas, talvez, ou lentas, ou simples… – dirão os acostumados às urbes. Sobretudo quando as horas lhe crescem um formigueiro no espírito e o impacientam. O corpo descontrolado sente a náusea dos hábitos das rotinas ou também da falta delas - quando não há perspectivas de uma descoberta que mude ou defina um rumo. O tal romantismo… acolhe-o e adormece-o num descampado, bem no centro geométrico da cidade que cresceu para fora e não cabe no mundo.

14

O que me resta é cantar a idealização. Não me posso aproximar mais sob pena de se desfazer este feitiço em que vivo. A que me lancei. Não encontro o travão, nem a lança, nem a rede, nem o desejo desejado – que se lixe a loucura e politize a razão.

As águas frias do céu vão tardando em chegar e acordar-me.

Não se pode não viver iludido. Ato-me. Abro-me.

Embaraço-me nos fios de sangue, de tinta, de impressões digitais nos tempos mortos e também nos intervalos das ansiedades.

A sensação de estar sempre a perder equilibra-me quando me encontro aos lados do caminho; diz-me ele assim: nunca fiz mais do que perder-me nos meus caminhos a cada nova bússola a que descuidadamente limpo o pó com os tecidos remendados de dentro para fora. Deixo-os cair, chegam ao chão pouco antes de mim.

Os caminhos não se fazem caminhando quando vou por aí. Fazem-se sonhando na forma da perda dos pesadelos – olhando os olhos e seguindo de vazio em vazio. Até restar o indizível e o canto da assombração.

15

Não preciso de ti para sobreviver,

Mas quando o meu campo for o teu corpo

Onde, com fogo na carne, lavarei a nossa terra,

Quando o céu cair sobre o meu corpo,

Onde, com água morna pela cintura, mergulharei

Nas areias entre os intervalos dessas sombras,

Entre as possibilidades, os acasos e tantos lados

Do corpo da tua alma a dirigir as minhas vidas,

Estas linhas e direcções que mal ou pouco se cruzam com as tuas,

Quando, onde, se acontecer: poderia passar a precisar mais:

De mais, demais, muito mais,

Mais do que quereria precisar.

Assim é preciso que me afaste - mais do que consigo,

É assim que não me consigo afastar:

É nalguma forma que preciso ser mais do que sou

Sem realmente precisar.

Deixar-me estar

Vogar como água a infiltrar-se,

A secar, a sonhar na terra e a alimentar as nuvens.

16

Cresceram cardos,

Choveram cravos,

Incendiaram-se rosas

Para começo do Verão

Mordemos os espinhos

Pelo ponto da flor

A descoberto

Em céu aberto

Em peito liberto,

Ao abrigo do dia

Pela claridade das vozes

A cantar as noites

Em vinho e poesia

Nas linhas e luzes das prosas

Às esperanças da maresia,

Remar, remar, rimar e voltar,

A leve leve leveza nada

Pela água até este lugar.